O que são Stablecoins Algorítmicas? Entenda o caso da LUNA!

por Isabela Roque (beladosbitcoins), em 12 de maio de 2022

Graduada em Engenharia da Computação pela FIAP e Mestre em Engenharia Elétrica e Computação (Inteligência Artificial, Análise de Sentimento) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É doutoranda em criptomoedas pelo Mackenzie e também Cientista de Dados. Atualmente é trader, instrutora de Python e R para Análise de Dados e possui a certificação de criptomoedas CBP (Certified Bitcoin Professional) da CryptoConsortium.




Essa semana aconteceu algo espantoso no mercado de criptomoedas: a stablecoin da LUNA, a UST, perdeu seu pareamento com dólar, o que acabou colapsando todo o ecossistema da moeda e vimos um medo generalizado de todo o mercado. A UST é uma stablecoin algorítmica, um tipo específico de stablecoin que tem um funcionamento diferente das demais como USDC e BUSD. No artigo de hoje vamos entender o que são essas polêmicas stablecoins algorítmicas, como elas funcionam e entender um pouquinho o caso da LUNA. Vamos lá?

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O que são?

Vamos primeiro definir o que é uma stablecoin para entender esse tipo específico.

Uma stablecoin é uma criptomoeda que tenta se parear com uma moeda existente, como é o caso do dólar e do euro, por exemplo. Esse tipo de moeda foi criado para evitar as volatilidades extremas das criptomoedas/tokens tradicionais que podem variar muito durante o dia. Nesse caso mais simples, normalmente a moeda precisa ter sua reserva na mesma moeda que está pareando, por exemplo uma moeda atrelada ao dólar precisaria ter uma reserva comprovada em dólar para garantir a sustentabilidade e segurança dela.

Já as stablecoins algorítmicas funcionam de modo bem diferente.

Elas vem ganhando bastante populariedade nos últimos anos com vários projetos criando sua própria stablecoin para ganhos dentro do protocolo de DeFi do ecossistema, como foi o caso da LUNA que criou a UST. E da criptomoeda NEAR que também está lançando sua stablecoin algorítmica.

Vamos entender melhor como elas funcionam?

Como funciona?

Uma stablecoin algorítmica não tem essa reserva necessariamente atrelada a moeda, na verdade elas não são “sustentadas” por nenhum tipo de ativo externo para garantir sua estabilidade e sim são baseadas em contratos inteligentes e oracles que garantem seu funcionamento adequado (ou quase isso).

A grande sacada desse tipo de stablecoin é utilizar um algoritmo projetado para balancear a demanda e a oferta da moeda para que o preço sempre fique “pareado” com a moeda de referência.

Existem diversos artigos no meio acadêmico que procuram entender o funcionamento dessas moedas e se elas realmente são estáveis para garantir a segurança de quem as usa. Em um estudo de 2021 [1], alguns pesquisadores tentaram entender a volatilidade dessas moedas e as classificaram em três categorias principais:

  • Rebase (Ampleforth) – esse tipo de stablecoin algoritímica gerencia a elasticidade de preços com tokens ERC20 e utiliza uma rotina de rebase diário que é ajustado automaticamente para sempre manter a stablecoin estável, sem grandes flutuações. Também há um processo de distribuição e queima das moedas.
  • Seigniorage Share (Basis Cash) – esse já é um tipo um pouco mais complexo pois tem toda uma questão de shares da moeda, o que incentiva investidores a sempre estarem comprando a moeda e ganhando tanto a moeda BAC (stablecoin) como a moeda BAS.
  • Partial-Collateral (Frax) – bem diferente dos casos citados acima, é uma stablecoin que faz uma analogia a stablecoins colaterais como a DAI, só que de forma algorítmica com um processo complexo de queima e mintagem de novas moedas. O ecossistema tem duas moedas: FRAX (stablecoin) e a FXS (token de governança).

E um outro estudo de survey de stablecoins, os pesquisadores fizeram uma ótima classificação de stablecoins centralizadas, descentralizadas e algoritímicas.

Fonte: Ayten Kahya, Bhaskar Krishnamachari, Seokgu Yun. Reducing the Volatility of Cryptocurrencies — A Survey of Stablecoins.

Desde sempre houve uma certa desconfiança da real estabilidade dessas moedas algorítmicas, será mesmo que elas são tão estáveis e seguras quanto dizem? Vimos o caso da LUNA, onde um erro sistêmico causou todo o caos que vimos essa semana no mercado, levando até o bitcoin pois o projeto tinha uma grande reserva de bitcoin e acabou as vendendo para tentar estabilizar o preço da UST.

Não é novidade essa desconfiança com essas stablecoins; em 2021, um pesquisador chamado Dr. Ryan Clements levantou todas as fragilidades desse tipo de moeda em um artigo. Para ele, a grande fragilidade desses modelos é que os dados sempre precisam ser confiáveis e às vezes em um sistema, não é isso que acontece, além disso, falta uma certa transparência do funcionamento real delas e até uma certa regulamentação. No caso da UST, foi muito perigoso envolver um modelo algorítmico para manter a moeda estável juntamente com reservas em BTC e AVAX, pois no primeiro “crash” do mercado, o modelo não se sustentou. Moedas stablecoins precisam de confiança e não volatilidade.

Conclusões

Como vimos no artigo de hoje, apesar da populariedade cada vez maior desse tipo de moeda, ainda temos vários pontos polêmicos a serem resolvidos para que elas realmente possam se caracterizar como “stable”, no pé da letra. E isso já foi levantado por vários pesquisadores (seja da área de computação, como da área de finanças e direito). Ao entrar em um projeto de stablecoin, sempre analisem com muito cuidado!

Referências

[1] Wenqi Zhao, Hui Li, and Yuming Yuan. Understand Volatility of Algorithmic Stablecoin: Modeling, Verification and Empirical Analysis

[2] Ayten Kahya, Bhaskar Krishnamachari, Seokgu Yun. Reducing the Volatility of Cryptocurrencies — A Survey of Stablecoins.

[3] Dr. Ryan Clements. BUILT TO FAIL: THE INHERENT FRAGILITY OF ALGORITHMIC STABLECOINS

[4] Bullmann, Dirk; Klemm, Jonas; Pinna, Andrea. In search for stability in crypto-assets: Are stablecoins the solution?

Tabela de Conteúdos